domingo, 16 de março de 2008

Revolução Forroupilha

Tranformado em palco de revoltas para todo lado, o Brasil vive a mais violenta, e duradoura batalha da época. Muitas guerras com o nome de uma, a Guerra dos Farrapos.
Marcada pelo descontentamento, por traições, e pelo anseio de liberdade, os gaúchos celebram o episódio mais marcante de sua história.
Como dizem escritores do assunto, nesta confusão de ideiais, heróis são vilões e vilões são heróis. E a razão, está do lado dos vivos, porque os mortos, não falam mais.

Ao longo de 3.466 dias, com 56 confrontos oficializados, e entre 3 a 5 mil mortos, marcasse em 20 de setembro de 1835 o incío da Guerra, com a tomada de Porto Alegre pelos rebeldes.
Formou-se uma fronteira armada, onde cada peão tinha seu soldado, e cada pago seu exército.
Nenhuma outra província obtinha o tão aprofundado conhecimento guerrilheiro de que dispunha o Rio Grande do Sul, e o império logo sentiu isso.
O conflito principiou com a revolta inciada pelo general monarquista Bento Gonçalves, contra os desmandos do presidente da província, Fernando Braga. Logo, vieram a tona todas as insatisfações e a raiva que sentiam contra o governo.

Mesmo que tenha sido por causas mal explicadas, no dia 11 de setembro de 1836, o general Antônio de Souza Netto, em palco da recente vitória na batalha de Seival, proclamou a indepência da Província do Rio Grande do Sul com o pronunciamento das seguintes palavras "Camaradas! Nós devemos ser os primeiros a proclamar, como proclamamos, a independência desta Província, a qual fica desligada das demais do império e forma um Estado livre e independente, com o título de República Rio Grandense".

Bento Gonçalves

Um estancieiro por legado familiar, cavaleiro, guerreiro, contrabandista de gado, bailarino por paixão, Bento Gonçalves se mostra vocacionado também para a área militar.
Caudilho, nascido em setembro de 1788, próximo à Porto Alegre, se engajou na luta aos 21 anos, sendo soldado nas guerrilhas do Uruguai em 1811, lutou na campanha Cisplatina, na Guerra das Províncias do Prata, 1825, e em seguida contra o caudilho Ribeira. Em 1833, carregando o título de coronel, foi chamado ao Rio (capital brasileira na época), acusado de contrabando de gado. Foi absolvido e nomeou logo em seguida Fernando Braga à presidência do Rio Grande.
Em 1835, os futuros farrapos foram surpreendidos com a criação de um imposto terristorial rural e pela demissão dos 2 comandantes Bento Gonçalves e Bento Manuel (apesar de combaterem o contrabando, ambos eram proprietários de fazendas no Rio Grande e no Uruguai e como todos, não relevavam a fronteira). Foi o auge da insatisfação e em 20 de setembro de 1835, os farrapos invadiram Porto Alegre.
Bento Gonçalves e Bento Manuel eram liberais, conscientes e monarquistas. Ambos lutavam apenas pela destituição do presidente e pela criação de um regime feudalista. Em 1836, o então presidente Feijó nomeou José Araújo Ribeiro para a presidência do Rio Grande do Sul, e a guerra quase se apaziguou. Araújo era primo de Bento Gonçalves, e muito respeitado entre os gaúchos, se ele tivesse se aliado aos farrapos logo que tomou cargo, teria acalmado o alvoroço e quem sabe instituir a paz. Não o fez, e em setembro do mesmo ano, Netto proclamou a independência.
Em o2 de outubro Bento Gonçalves foi preso por Bento Manuel, que acabara de mudar de lado (isso se repetiria mais 3 vezes). Mas, mesmo estando na prisão Bento Gonçalves foi eleito presidente da nova República. Assim que fugiu da prisão em 1837, assumiu o cargo. E só então se declarou separatista apesar de ter admiração pelo imperador.
"Bento Gonçalves foi fiel a todos, menos a si próprio". Citou um cronista do conflito.

Entre linhas...

...a maior derrota sofrida pelos farrapos no comando de Gonçalves foi vitória do próprio ex-companheiro Bento Manuel, no combate da ilha de Fanfa, no rio Jacuí, em outubro de 1836. Bento Manuel havia abandonado o lado farrapo logo no início da revolução e passou ao dos imperiais.
A vantagem das tropas de Bento Manuel foi reforçada pela aliança com o estadunidense John Greenfell, que com as frotas cercaram os farrapos na ilha e deixaram cerca de 120 deles mortos, muitos deles afogados.
Bento Gonçalves se rendeu a Bento Manuel num acordo onde nenhum de seus homens, inclusive ele seriam presos, depois de jurarem lealdade ao império. O acordo não foi honrado, e Gonçalves foi mandado para a prisão no Rio de Janeiro onde conheceu Garibaldi, revolucionário que logo depois se uniria aos farrapos.
Foi transferido para o Forte do Mar, na Bahia, após uma tentativa de fuga. Escapou de lá em setembro de 1837, retornando aos pampas e assumindo a presidência da República Rio Grandense. Foi presidente e chefe do exército farrapo, de 36, ano de sua eleição, até o fim da guerra. Em 1844 pediu exoneração para evitar conflitos internos.
Em duelo, matou o velho amigo Onofre Pires, e morreu cerca de 2 anos após o fim da guerra, pobre e deprimido.

Bento Manuel

Traiçoeiro, ou egoista?
Paulista nascido em Sorocaba, Bento Manuel Ribeiro, é o ícone de contradição da guerra. Só para início de conversa, trocou de lado quatro vezes. Dos farrapos, para os imperiais, em 1835, venceu Bento Gonçalves em Fanfa (e foi "forçado" a descumprir a promessa de que o soltaria).
Ao tornar-se líder militar do lado imperial, ficou abismado com a indicação de Antero de Brito para a presidência do Rio Grande do Sul, e em março de 37, prendeu o presidente e voltou para o lado farrapo, ficando com eles de abril de 38 até meados de 39.
Em julho de 39, ao se tornar coronel uma de suas maiores inimizades, se fastou novamente dos rebeldes. Em julho de 1840, foi perdoado pelo império e se mudou para o Uruguai, residindo lá até ser convidado por Caxias para integrar o Estado-Maior do Exército. Ao aceitar tornou-se figura chave na vitória legalista, na ofensiva final sobre os gaúchos. Em 1845 tomou cargo de marechal de campo. Morreu em Porto Alegre, 10 anos após, aos 72 anos de idade. "Ao contrário de Bento Gonçalves, Bento Manuel Ribeiro traiu a todos, menos as si mesmo" diz Tabajara Ruas, autor de dois romances sobre os Farrapos.
Manuel Osório também abandonou os gaúchos assim que o Rio Grande se declarou indepente, por dizer-se "antes de tudo brasileiro".

Giuseppe Garibaldi

O grande herói libertário. Mas apesar de ser assim considerado, convenhamos que a participação dele na guerra foi no mínimo desastrosa. Claro, desconsiderando o romance poético, e as cenas épicas.
Nasceu em Nice, em 1807, e deixou a Itália fugindo de uma condenação a morte, e da peste em Marselha. Chegou ao Rio, onde conheceu o conde italiano revolucionário Tito Lívio Zambecari e seu companheiro Bento Gonçalves. Ambos farropilhas e presos.
Garibaldi falhou ao tentar resgatá-los, mas sem demora retornaram ao rio Grande do Sul, onde com auxílio de um lanchão percorriam a Lagoa dos Patos saqueando os navios imperiais. Vários desses ataques falharam.
O maior feito de Garibaldi a favor da guerra foi na transição quase impossível de dois lanchões por terra, o Seiva e o Rio Pardo.
Apesar disso, o ataque que comandou a Laguna não resultou em nenhum benefício significativo para os farrapos. Mas se não trouxe nenhum lucro para a guerra, trouxe para Garibaldi, pois ocasionou o encontro dele com a mulher de sua vida, Anita. Em 1945, Garibaldi negou ligações com os farrapos. Voltou para a Itália, em 48, junto com Anita. De volta ao país de origem, participou de algumas lutas nacionalistas, enfrentou os austríacos, esteve nos Estados Unidos, no Peru e na China, sempre em combate.
Morreu em 1882, e em seguida foi eternizado pelo criador de 'Os Três Mosqueteiros'.

"O Pampa é o mar dos gaúchos"
Por serem praticamente leigos em questões marítmas, e pelo acesso ao mar inexistente surgiu a idéia de tomar Laguna. Neste intuito, cruzaram os pampas carregando dois lanchões imensos (de 18 e 12 toneladas), uma longa viagem que se iniciada no Rio Capivari (um dos formadores da Lagoa dos Patos). Auxiliados por 200 bois, marcharam por mais de 100 quilômetros, até a foz do Tramandaí, onde entraram no mar e se projetaram em ataque sobre a pequena e vulnerável laguna. Para o ataque receberam ajuda das tropas terrestres de David Canabarro. Os farrapos que recebiam apoio guerrilheiro da população local de Laguna, a perdeu pela geração de revolta na insistência dos saques na cidade. A tomada da cidade se deu em 22 de julho de 1839.

Aparentemente a "República Juliana" teria vida próspera, no entanto, em novembro do mesmo ano, os imperiais retomaram Laguna, e os farrapos forçados inciaram retirada por terra. Este era o início do fim da guerra.

Retomando os pontos...
Em 1839, liderados pelo guerrilheiro italiano Giuseppe Garibaldi e pelo estancieiro David Canabarro os farroupilhas cruzaram as fronteiras de Santa Catarina e proclamaram a República Catarinense ou Juliana. Esta foi desfeita alguns meses depois pelo General Soares de Andrea e pelas forças navais de Frederico Mariath.
Um acordo de paz foi proposto aos revoltoso da época, mas não interessou aos farrapos. A sede da República Rio Grandense foi transferida de Porto Alegre para Caçapava e daí para Alegrete, onde se manteve.
Curiosamente o império decidiu acatar uma das exigências dos gaúchos, propondo o fim da guerra na promessa de cobrar uma taxa de apenas 15% sobre o charque do Prata.
Em 1842, intitulou-se presidente e comandante de Armas do Rio Grande, aquele que mais tarde se tornaria o duque de Caxias. Sob sua liderança os farrapos foram vencido, e obrigados a assinar uma cordo com Canabarro que assegurava a rendição das torpas farrapas em troca de sua anistía e o ingresso dos guerreiros gauchos pra o exército imperial, além disso, ficou decretado que o governo assinaria as dívidas da Rebública do Piratini (Nome pouco usado por se referir unicamente a primeira capital, Porto Alegre).

Anita Garibaldi

Ana Maria de Jesus Ribeiro da Silva era uma simples costureira de laguina que viveu a mais linda, sofrida e emocionante história de amor do passado sulista.
Interligada ao reflexo consequente de suas atitudes, lorgou o marido, e tornou-se uma das mais valentes mulheres da história, tomou cargo de guerreira e ao lado do amante tornou-se símbolo de paixão e desprendimento.
Anita e Giuseppe se casaram em 1842, em Montevidéu. Em 1847, com três filhos foram para a Itália, onde Anita foi acolhida como heroína. Lá lutou durante dois anos ao lado do marido. Morreu em 1849, de pneumonia.

Desfechos Finais

Envolvendo intrigas polícas, economicas e ideológicas, a revolução farropilha foi tipicamente pampeana. Lutada a cavalo, repleta de atos heróicos, ataques violentos, e heróis venerados.
Alguns dos historiadores dividem a guerra em três partes, a primeira inciada em setembro de 1835 e finalizada em setembro de 36, intitulada de "A Separação". A segunda de 36 a 43, "A Fase da Rebelião", e a última "A Reintegração" do Rio Grande ao Império, de 43 até a paz de Poncho Verde, aceita em fevereiro de 1945.
Apesar da paz ter sido reimposta, Caxias não a aceitava, por saber que a luta não dizia respeito, como todos pensavam, a "esfarrapados", mas sim, a elite Rio-Grandense, os grandes latifundiários produtores de charque, e se indignava absurdamente, pois embora a firmação do acordo que diminuiam os impostos, as taxas uruguaias continuavam com significativa diferença, sendo que enquanto o charque gaúcho rendia ao Rio de Janeiro 25% de seu valor, o Uruguai era obrigado a pagar apenas 4%.
Além disso, a promessa de liberdade aos escravos guerrilheiros não foi cumprida, teve fim trágico e cruel. Em 1844, os chamados "Lanceiros Negros", foram reunidos em Porongos, e sob as mãos do comandante Canabarro, foram exilados. Essa atitude, embora desumana, evitou problemas.
A guerra durou 10 anos, embora fossem feitas pausas durante o forte do inverno. Os farrapos inciaram a guerra com 1700 homens, reunindo mais tarde 3 mil. Os imperiais contavam com apenas 270 guerreiros, incialmente, recebendo apoio mais tarde, de 11 mil soldados, dois terços do Exército brasileiro da época. Apesar da vantagem, Caxias só venceu a guerra por dispor da ajuda de Bento Manuel e de Chico Preto, violento guerrilheiro.
Além das vítimas como os escravos, os alemães rescém chegados ao Brasil, e recrutados pelos farrapos, os bois que tiveram as liguas cortadas para não serem usados pelo inimigo, outro grande refém dos farrapos foi a verdade.
Embora poucos saibam, a história da guerra foi mantida como tabu durante muitos anos, sendo proibido escrever sobre os relatos da revolta. O primeiro livro que conseguiu ser publicado foi Memórias de Garibaldi, dissertado por Dumas.

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