sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Hipocrates
Nem a sociedade, nem o homem, nem nenhuma outra coisa deve ultrapassar os limites estabelecidos pela natureza.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

A guerra do Contestado



Desespero, fanatismo, insatisfação e crueldade. Em foco quase imitativo a Guerra de Canudos, movido pelos mesmos motivos e em quase semelhante desfecho, registra-se, 15 anos mais tarde, na região "sul-maravilha" a Guerra do Contestado.


Com uma economia fragilizada, baseada no cultivo de erva-mate e na extração de madeira, os jagunços ocupantes de um território de 48 mil km² situado a noroeste de Santa Catarina e sudoeste do Paraná se vêem repentinamente obrigados a abandonar suas casas, pela inconsequente decisão do governo federal em que cederia à Brazil Railway uma faixa de terra na extensão de 30 km de largura, no centro da qual seria construída uma estrada de ferro para a interligação de São Paulo ao Rio Grande do Sul. A razão dada pelo governo era de que esta ferrovia viria para benefício dos gaúchos, pois transportaria o charque produzido por eles.


Bom, era apenas mais uma tentativa do governo de amenizar a insatisfação também dos Rio Grandenses (motivo principal da Revolução Farroupilha), pois com o aumento do preço do charque o país deu início a importação do mesmo de outros produtores como o Uruguai e a Argentina, que atigiam valores menores, deixando assim de lado a produção nacional, logo, a perda de comércio do Rio Grande do Sul.



Além da companhia que faria a construção da ferrovia, instalou-se na região também a Southern Lumber, para fazer a desmatação e limpeza da área em que passaria a estrada. Ambas eram propriedade de Percival Farquhar, considerado um dos DONOS do Brasil. Literalmente!

A Southern Lumber contratou milhares de caboclos da região, impondo-os à um trabalho vil e semi-escravo.



Quando tiveram início as construções, os militares do governo, invadiam as casas e expulsavam os moradores que se negavam a sair, saqueavam os bens de valor, e queimavam as residências.

Essa situação forçou os jagunços a unirem forças para conter os oficiais, dando início definitivo a revolta.


Embora o exército contava com maior número de pessoas, munição e técnica guerrilheira, os jagunços levavam vantagem no quesito do território. Nascidos na terra, e utilizando dela para a própria sobrevivência, deu a eles um conhecimento aprofundado sobre trilhas, esconderígios e atalhos. Este foi um ponto de forte aproveitamento.


Sem dinheiro, apoio, e quase sem esperança, os jagunços se apresentavam cada vez mais vulneráveis aos ataques, mas não desistiam da luta. Se reuniam durante a noite no meio da mata, envoltos numa fogueira para tomar chimarrão, se reestabelecer das batalhas, e armar as estratégias para surpreender os militares. Nessas "rodas", frequentemente havia a presença de um oficial disfarçado com o intuito de descobrir e interromper os planos dos jagunços, e vigiar para que ninguém ousassee difamar a República, (considerado crime).


Definitivamente estavam cercados e desiludidos, ou morriam na tentativa de fuga ou eram explorados por quem supostamente trazia o "progresso" para o Brasil. Sem a mínima noção do que ainda poderia lhes acontecer e sem esperança de futuro, os jagunços encontraram nas mãos de um gaúcho índio e mestiço, a força e coragem que precisavam, anexadas a vontade de lutar por seus direitos, trouxe vida nova à batalha.


Em 1911, surge em Palmas (PR), aquele que seria o ícone da guerra. Um monge, homem simples, de aparência medonha, de barba e cabelos longos, descrente de posses materiais, planta entre os jagunços uma esperança nova, a fé. Tornou-se do povo o líder, e mesmo sem participar diretamente das batalhas encontrava o caminho da vitória.


Conhecido como João Maria, este homem se fez acreditar, por dizer ouvir vozes daqueles que já teriam derramado o próprio sangue, e dado a vida por esta causa. Baseando-se nessas vozes, confiando em Deus e com o auxílio íntegro do conhecimento da região, tido por aqueles que alí sempre viveram, João Maria venceu todas as batalhas que liderou.




Em pouco tempo João Maria já reunia cerca de 2 mil seguidores. Defendia o fim dos tempos, pregava que o comércio era insano e que S. Sebastião voltaria para reinar na Terra. Dizia ainda que tinha sido nomeado por Deus, para ser o fundador da "Monarquia Celeste" construindo seu primeiro "quadro santo" em Curitibanos (SC), este cercava com quatro cruzes de madeira uma capela simbólica em seu centro.



Limitados pelos rios Uruguai, Iguaçu e do Peixe, e pela fronteira com a Argentina, os jagunços focaram todas as forças que ainda restavam na companhia e auxílio indispensável de João Maria que apontava Deus como guia. Venciam com maior facilidade, aproveitavam as vantagens e oportunidades, driblando as dificuldades.


Em outubro de 1912, uma tropa com cerca de 400 homens e liderada pelo capitão João Gualberto, atocou o "quadro santo" de Irani (SC) onde se refugiavam os seguidores de João Maria e que fora contruído alguns anos após o de Curitibanos. Nesse ataque, um dos primeiros a serem mortos foi o próprio monge, sendo esta a primeira e a última batalha que participaria. Além do monge morreram também Guadalberto e outros 13 soldados, os demais fugiram deixando para trás as armas e munições que carregavam.


A morte inesperada de João Maria provocou um certo abalo entre os rebeldes, mas que foi solucionada após o seguimento das ordens que o monge havia deixado para tal situação. Em uma das reuniões de que promovera, João Maria explicou alguns procedimentos que deveriam ser tomados caso ele viesse a morrer, que seria a de enterrarem o seu corpo com a cabeça voltada para o nascer do sol, com uma pedra maior indicando a direção acompanhada de uma cruz, e com um círculo formado por pedras menores ao redor do corpo. Segundo ele, se fizessem isso do jeito como ele ordenara alguns dias após ele retornaria à vida e retomaria o posto de líder.


Porém, não foi exatamente o que aconteceu. Houveram relatos de que uma garotinha teria visto João Maria enquanto brincava próximo ao lugar onde ele tinha sido enterrado. E que ele ainda teria dito à ela que os jagunços não poderiam abandonar a guerra por causa de sua morte, e que um acordo entre os dois lados estava por vir. Mesmo sem muitos crerem nas afirmação da garotinha, estratégias para novos confrontos foram estudadas e postas em prática.


Depois da ação da polícia de raspar a cabeça de alguns jagunços, os demais também rasparam e passaram a se chamar de "pelados", sendo os "peludos" os combatentes do governo, ou como eles constumavam dizer, os combatentes da Monarquia Celestial.


A revolta se estendeu por mais alguns anos até que o governo decidiu ceder a pressão dos jagunços, e reuniundo cerca de 20 mil na praça da cidade de Irani, declarou o encerramento da construção da estrada de ferro. O acordo de paz foi assinado no dia 12 de outubro de 1916, mediante a presença dos governadores Filipe Schimidt (de Santa Catarina) e Afonso Camargo (do Paraná), no local onde logo depois seria fundada a cidade de Concórdia (SC), com seu nome homenageando o acordo de paz entre os dois lados da guerra.



Hoje estão disponíveis para visitação os museus do Contestado, sendo um localizado em Irani e outro em Caçador (SC). Além do museu, em Irani também existe o 'Cemitério do Contestado', reconstruído próximo ao museu, o marco simbólico da guerra (foto a cima) e a área onde ocorreu a batalha que provocou a morte do monge. Reside em Irani também aquele que julgamos a maior celebridade do contestado, o professor e historiador que dedicou toda a sua vida para descobrir o que de fato provocou a guerra, e que defende com unhas e dentes o reais heróis da história, os jagunços.

Saudações a imponente figura de Vicente Telles!